domingo, 24 de fevereiro de 2013

Crônica (Contemplando o mar)


Conheci o mar com quinze anos. Praia Santa Terezinha, Pontal do Paraná,  estado do mesmo nome.
Sei disso, trata-se de um acontecimento corriqueiro na vida das pessoas,  como também sei que muitos sequer usufruirão as delícias da praia de água doce mais próxima.
Quanto a mim, dentre muitas lembranças, tem aquela do meu embasbacamento ao contemplar o mar pela primeira vez e, mesmo estando em êxtase diante daquela imensidão de água, ter estranhado sua cor: não era azul.
Ao menos aos meus olhos de adolescente que nunca tinha saído de sua pequena cidade interiorana.
Fiquei naquela contemplação por alguns segundos. Ah! Acredite, não deu outra.
Aproveitei aqueles cinco dias com intensidade, e, como dizem os antigos, refestelei-me até o último segundo. A cor do mar que ficasse a cargo de quem por ela se interessasse, pintor ou cientista.
A vida continuou, estive em muitas praias. Mas tenho comigo que não sou praieiro.
Recordo que anos depois, eu já adulto residindo nesta pequena e bucólica cidade, em certa ocasião conversava com duas pessoas na calçada em frente à residência de uma delas, e estava prestes a mencionar um fato engraçado acontecido naquele verão em Ilha Comprida, litoral de São Paulo, quando se juntou a nós um comerciante ainda jovem do ramo de confecção e, sem pedir licença, perguntou para um dos participantes de nossa rodinha, também um jovem comerciante no ramo de alimentos, sobre sua viagem a Porto Seguro, Bahia, da qual retornara no dia anterior.
Notamos, eu e o outro ouvinte, que, enquanto discorria prazerosamente sobre sua tão importante e definitiva viagem, seu indagador sorriu irônico, olhando de viés para nós.
Achei engraçado aquele momento, e segundos depois de desfazermos a roda, cada um tomando seu rumo, me esqueci daquela conversa.
Até porque nem naqueles tempos, muito menos agora, tenho interesse e condições financeiras de conhecer Porto Seguro. Prefiro a praia de água doce distante uns vinte quilômetros de minha casa.
Mar porque estou eu a recordar essas besteiras todas?
Corte rápido.
Nestes últimos dias testemunhei e tomei conhecimento de alguns acontecimentos ocorridos na pequena e bucólica cidade onde vivo.
Muita gente, como eu, quando se vê de frente pela primeira vez com algo tão imenso como o mar se surpreende com a cor.
Até então não poderia saber ser real aquela cor que antes sonhara ser azul e azul via nos mapas e no globo terreste de sua escola.
E muitos indivíduos, menosprezando as experiências vividas pelas demais pessoas, tal como aqueles dois comerciantes, se julgam e agem como se fossem o suprassumo da experiência de vida pública ou particular, esquecendo-se que apenas possuem, ou não, alguma quilometragem a mais, e que estamos numa mesma estrada e o destino é comum a todos.
Sem exceção.
(João Neto)

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